
Cesare Fea chegou no país em 1973 para ficar três meses na Fiat Caminhões. Segundo suas informações, foi o primeiro italiano no estrangeiro a pedir demissão da Fiat. "Só voltei para a Itália como turista desde então", afirma.
Consultor e especialista em manejo na cultura do pinhão-manso, Cesare recebeu a Revista Biodiesel em seu escritório no Rio de Janeiro para esta entrevista. Confira o que pensa esse italiano que define o Brasil como "maravilhoso, com um povo sensacional, um ótimo clima, além, é claro, de possuir uma imensa quantidade de oleaginosas para se trabalhar".
Revista Biodiesel: Porque o senhor é um defensor do pinhão-manso?
Cesare Fea: A primeira pessoa que me falou sobre o pinhão-manso foi meu grande amigo Nedo Zecca.
Ele era um defensor do pinhão e eu da mamona na época. Fizemos uma série de experiências com mamona, girassol e amendoim para descobrirmos uma oleaginosa que se adaptasse ao Rio de Janeiro. Pois eu sempre soube do enorme potencial que o estado tem: cerca de 1 milhão e meio de hectares de terra disponível para plantar oleaginosas.
Na Europa e nos EUA as únicas que dão certo são a canola e o girassol. Se dizem que o Brasil faz energia com comida, o pinhão-manso não é comestível, assim como também não o é a mamona. É uma planta que tem vida útil de 50 anos, podendo ser plantada em lugares diferentes, como morros e desertos.
Revista Biodiesel: Há quanto tempo são feitos esses testes?
Cesare Fea: Os testes começaram há 4 anos. Não somos agricultores e nem somos empresários. Estamos ajudando os agricultores do Rio de Janeiro a plantar mais de 150 mil pés de pinhão-manso, que já recolhemos para fazer testes nas mudas.
A cultura, no entanto, tem uma falha grave, que é a falta de pesquisas e de entidades que apostam nela. Temos um grande parceiro para fazer um banco de germoplasma do pinhão-manso e estamos começando a desenvolver esse projeto.
Revista Biodiesel: Nos explique melhor o projeto germoplasma.
Cesare Fea: Isso nada mais é do que o material genético do pinhão-manso. Atualmente temos 4 ou 5 origens de sementes confiáveis. Mas temos uns 200 lugares onde elas são plantadas, sem controle e sem definição. Em um ano, a vida útil dele pode ser de 5 a 6 meses. Se as pessoas ajudarem. Podemos transformar essa planta na melhor oleaginosa para produzir óleo vegetal desse país. Confio muito nisso.
Revista Biodiesel: Você acha que dentro de uns cinco anos teremos uma grande produção de pinhão-manso no Brasil?
Cesare Fea: Não tenho a menor dúvida. Hoje estamos consumindo 1 bilhão e 200 milhões de litros de biodiesel por ano, sendo que 80% são feitos com óleo de soja, que é um comestível de primeira qualidade. Além do mais, se o custo está a dois reais por litros, como posso comprar o óleo a 2,40? Só com um milagre.
Revista Biodiesel: O pinhão-manso pode equacionar isso?
Cesare Fea: O preço de venda da usina de biodiesel varia de 1,80 a 1,90 reais por litro. Agora quero deixar bem claro, não vamos parar só no pinhão-manso. O país tem mais de 250 tipos diferentes de oleaginosas, nativas e não nativas, principalmente no Nordeste, ou seja, não precisamos desmatar a Amazônia. Portanto, o pinhão-manso pode ser tornar uma das oleaginosas que mais se adaptariam ao país para produzir biodiesel, economicamente falando.
Revista Biodiesel: Em sua opinião, em quais outras oleaginosas o Brasil poderia apostar?
Cesare Fea: Uma saída interessante seria usar o algodão. Que tem várias utilidades como para fazer tecido. Por exemplo e o seu caroço pode se transformar em óleo. A torta que é originada no esmagamento pode ser usada na ração animal. Periodicamente tem que se deixar o terreno descansar, para que não seja esgotada sua capacidade, e o algodão poderia ser plantado entre as safras.
Revista Biodiesel: Quais os principais rumos que o senhor poderia apontar para o seu Rio de Janeiro, em relação a tecnologias limpas?
Cesare Fea: Aqui têm uma prioridade excessiva em relação ao petróleo, o que é compreensível. Mas temos também que incluir o Rio de Janeiro no mapa das energias renováveis.
O estado tem um enorme potencial agrícola. Agora, falta apoio do poder público. O Estado importa mais de 70% de suas hortaliças e eu sei do potencial que pudemos explorar. Quem sabe nos tornamos até exportadores. Vivo aqui há 34 anos e estou vendo essas coisas há muito tempo. Vamos mudar!
Sei que o governador também tem essa vontade, então vamos juntar as mãos e vamos transformar este estado. Vamos criar oleaginosas. Em Resende temos a maior esmagadora do país que, por acaso, não funciona.
Revista Biodiesel: Na sua visão, o setor de biodiesel está em crise?
Cesare Fea: Essa crise mundial não atinge a nossa área, primeiro porque é uma exigência ambiental, temos que parar de acabar com mundo e para fazer isso temos que parar de poluí-lo, principalmente parando com a queima do petróleo. Em segundo lugar, o petróleo, mais cedo ou mais tarde irá acabar.
Posso não chegar a ver isso, mas meus filhos e netos irão ver. Então não devemos esperar que as coisas aconteçam para tomar as devidas providências.