O presidente da Única, União da Indústria de Cana de Açúcar (SP-Brasil), Marcos Jank, comenta a situação atual dos biocombustíveis no país, acredita que a demanda pode ser gerada com o estimulo do uso deste combustível e lembra da importância de se lutar incessantemente pela redução do protecionismo.
Revista Biocombustíveis - Como o mercado brasileiro vê o crescimento dos biocombustíveis hoje em dia?
Marcos Jank - O Brasil apresenta vasto potencial neste setor, tanto que o etanol corresponde, atualmente, a mais de 40% de todo o combustível veicular utiliza do no país. O potencial de aumento do consumo no mundo também é muito grande, principalmente nos Estados Unidos e na Europa, devido à importância dos biocombustíveis na matriz energética do planeta, contribuindo para a redução do aquecimento global, o que motiva uma pressão dos consumidores e dos governos pela busca mundial por combustíveis renováveis.
Revista Biocombustíveis - Como podemos gerar demanda para a produção de etanol brasileira?
Marcos Jank - Para gerar demanda precisamos estimular o crescimento do mercado interno e abrir novos mercados. No caso do mercado interno, pela primeira vez lançamos uma campanha de comunicação em todo o país para incentivar o uso de álcool nos carros flex. Porém, precisamos também unificar a alíquota do ICMS em todo o território nacional, estabelecendo um tratamento para os combustíveis renováveis semelhante ao hoje conferido ao óleo diesel e ao gás natural veicular. Para aumentar a demanda internacional de álcool, a Única estará implantando nos próximos 6 meses uma estrutura de 3 escritórios de representação da indústria brasileira de cana-de-açúcar em Washington, Bruxelas e em alguma capital do Leste da Ásia, provavelmente Tóquio ou Pequim. Os escritórios da ÚNICA no exterior são o início de um diálogo permanente do nosso setor com o mundo, por meio do qual iremos mostrar as vantagens comparativas em termos de produtividade, custos e balanço energético, social e ambiental do etanol de cana-de-açúcar, frente aos seus concorrentes fósseis e renováveis. Pretendemos participar da pujante agenda internacional dos biocombustíveis, junto ao legislativo e executivo das grandes nações e blocos econômicos, à mídia, às Organizações Não-Governamentais, à sociedade civil e aos formuladores de acordos comerciais como os que estão sendo desenvolvidos com os EUA e a União Européia.
Revista Biocombustíveis - Qual a expectativa de investimentos para o setor no Brasil nos próximos anos/décadas?
Marcos Jank - Estima-se que sejam investidos aproximadamente US$ 17 bilhões nos próximos cinco anos, sendo US$ 14 bilhões para a construção de novas usinas e o restante na expansão das existentes. A previsão é de que pelo menos 86 novas usinas entrem em operação até 2012/13.
Revista Biocombustíveis - Como está a abertura do mercado externo em relação à exportação do etanol brasileiro?
Marcos Jank - Temos registrado crescimento nas exportações de etanol. De abril a setembro de 2007 o Brasil exportou quase 2 bilhões de litros de etanol sendo que no mesmo período de 2006 o volume exportado foi de 1,80 bilhão de litros. Porém acredito que o primeiro grande desafio é consolidar o etanol como commodity energética global na área dos combustíveis, por meio da ampliação da produção, do consumo e do comércio do produto em vários países. É preciso combater mitos e preconceitos contra o setor sucro-alcooleiro brasileiro que se espalharam em grande velocidade pelo mundo, depois que os EUA e a UE decidiram duplicar ou triplicar a sua produção de biocombustíveis.
Temos de estimular o crescimento da produção e consumo de etanol no maior número de países, apoiando mecanismos mandatórios de mistura e estabelecendo padrões universais para o produto. O mercado mundial de biocombustíveis ainda está dando os seus primeiros passos. É inaceitável vermos hoje o mercado de combustíveis fósseis totalmente liberalizado no mundo e o de combustíveis renováveis, que representa um dos sonhos da humanidade no século 21, ainda fortemente protegido.
Revista Biocombustíveis - Quais são os poten ciais países importadores do etanol brasileiro?
Marcos Jank - Em termos de potencial futuro temos Japão, Coréia, China e com certeza a expansão dos volumes exportados para Estados Unidos e União Européia.
Revista Biocombustíveis - Como o senhor vê a atuação do Governo Federal no incentivo à pro dução de biocombustíveis?
Marcos Jank - É fundamental que o Governo e a UNICA adotem uma ação protagônica nas discussões globais com outros governos, empresários e ONGs sobre os problemas de aquecimento global, mudança climática, créditos de carbono, economia de recursos naturais, biotecnologia e outras matérias importantes, incluindo o debate sobre mecanismos apropriados de certificação sócio-ambiental.
Temos um diálogo aberto com o Governo Federal, que tem trabalhado incansavelmente para a abertura de mercados no exterior para o etanol brasileiro. Temos conversado também sobre a necessidade de investi mentos na área de logística de transporte e portuária e, também, sobre a unificação da alíquota do ICMS em todo o território nacional.
Revista Biocombustíveis - Em relação à sustentabilidade ambiental, o que o senhor acredita que possa ser feito para diminuir a queima de cana?
Marcos Jank - No Estado de São Paulo o Setor Sucro-alcooleiro já assumiu um compromisso com o Governo e a queima da palha da cana-de-açúcar será eliminada completamente até 2017. No último dia 22 de outubro, 96 unidades produtoras de açúcar e álcool confirmaram sua adesão, de forma voluntária, ao Protocolo Agroambiental do Setor Sucro-alcooleiro e receberam um "Certificado de Conformidade Agroambiental". Pelo protocolo, a queima da palha de cana nas áreas mecanizáveis, anteriormente prevista para acabar em 2021, será completamente eliminada até 2014. No caso das áreas não-mecanizáveis, a antecipação será ainda mais radical: de 2031 para 2017. E mais, as novas áreas ocupadas pela cana a partir de novembro de 2007 serão integralmente colhidas sem o uso do fogo. O Protocolo também dispõe sobre outros temas de enorme relevância, como conservação do solo e dos recursos hídricos, proteção de matas ciliares, recuperação de nascentes, redução de emissões atmosféricas e cuida- dos no uso de defensivos agrícolas.
A Única tem como preocupação a sustentabilidade tanto nas questões ambientais como sociais. A eliminação da queima não pode ocorrer de forma abrupta em função do grande contingente de trabalhadores rurais empregados no corte manual, da necessidade de adaptação das áreas para a colheita mecanizada (variedades corretas, sistematização dos talhões de cana etc.) e da disponibilidade de equipamentos. A compatibilização dos interesses ambientais e sociais tem sido possível com a eliminação progressiva da queima. Por essa razão, vamos iniciar um programa de requalificação de mão-de-obra no setor para funções como tratorista, caldeireiro, visando aproveitar parte da mão-de-obra que estará disponível após a mecanização. Teremos 50 mil novos empregos no plantio/colheita e 20 mil novos empregos na indústria sucro-alcooleira em 2020.
Revista Biocombustíveis - Qual a sua opinião sobre as afirmações de que o crescimento do setor sucro-alcoleiro possa causar eventuais prejuízos a outras culturas no Brasil?
Marcos Jank - Não existe conflito entre a cana e outras culturas. O Brasil possui grandes propriedades agrícolas focadas em diversas atividades como cana, soja, milho, flores, frutas, etc. em todas as regiões do País. Com 850 milhões hectares, o Brasil tem uma grande fração do território em condições de sustentar economicamente a produção agrícola, mantendo ainda grandes áreas de florestas com diferentes biomas. As áreas de cultivo agrícola totalizam hoje cerca de 63 milhões de hectares (apenas 7,4% do território, sendo cerca de 22 milhões de hectares cultivados com soja e 13 milhões de hectares com milho) e as áreas de pastagens correspondem a 200 milhões de ha, incluindo uma parcela com certo nível de degradação. Enquanto isso, a área ocupada pela cana para produzir etanol é de apenas 0,8% do território nacional, hoje temos cerca de 7 milhões de hectares ocupados com cana-de-açúcar no Brasil, 50% para etanol e 50% para açúcar. A cana-de-açúcar ocupa ínfimos 2% da área agricultável do país, 3 vezes menos que a área com soja e quase 30 vezes menos que a área de pastagens. Agora, a chegada da cana-de-açúcar ao Centro-Oeste marca o início de um novo ciclo de intensificação e diversificação do uso da terra. O valor oferecido para arrendamento de terras para cana vai eliminar os últimos bolsões de ineficiência na agropecuária, nas grandes e nas pequenas propriedades. Soja, milho, algodão e cana deverão competir pelo uso da terra em função de seus preços relativos, condições de logística e de rotação de culturas, com uma inevitável intensificação
Da produção de carnes e leite. Portanto, a expansão da cana-de-açúcar deve ser vista como um fator de diversificação da renda do produtor e intensificação da atividade agrícola em áreas ineficientes.
Biocombustíveis - Como mostrar a sociedade que é possível manter essa sustentabilidade da produção do etanol?
Marcos Jank - O crescimento da oferta se dará com a implantação de novas unidades, expansão das unidades existentes e aumento da produtividade agroindustrial. A maior parte do incremento dae oferta se dará de maneira vertical, pela maior produtividade de novas variedades de cana e pelo indiscutível papel desempenhado pelo avanço tecnológico.
No caso do etanol, a nova fronteira tecnológica está na produção a partir da celulose (palhadas, forragens, resto de madeira, etc). No Brasil, por exemplo, a produção de etanol a partir do bagaço e palhas da cana poderá dobrar a produtividade nos próximos anos. Portanto, no caso dos combustíveis de segunda geração, a expansão da produção não deverá ocorrer via aumento de área.
É importante também destacar o uso da bioeletricidade, utilizando a biomassa disponível na própria usina. Estamos falando de energia elétrica limpa e totalmente renovável, de baixo impacto ambiental, com reduzido tempo de construção, disponível no coração dos centros de maior consumo elétrica precisamente nos meses mais secos do ano (o que a torna, além de limpa e renovável, altamente complementar à sazonalidade hidrelétrica). Com políticas públicas adequadas envolvendo conexão direta, licenciamento ambiental rápido e valoração adequada, o setor pode suprir 15% das necessidades elétricas do país ou o equivalente a quase duas Itaipús.
Revista Biocombustíveis - O Governo brasileiro está negociando com os Estados Unidos a adoção de uma cota de etanol fabricado no Brasil? Como está essa questão?
Marcos Jank - Precisamos entender que sustentabilidade e aquecimento global são temas sistêmicos que exigem um tratamento global. Infelizmente, muitos países estão tratando o tema com um enfoque doméstico e isolacionista, centrado na auto-produção a partir de matérias-primas pouco eficientes, como nos EUA, onde a expansão do etanol está baseada em milho. Foi assinado neste ano um acordo de cooperação foca do em pesquisa entre o Governo Brasileiro e o Governo norte-americano. Entendemos que uma negociação de cota de etanol brasileiro é um projeto de médio e longo prazo e estamos trabalhando junto ao Governo Brasileiro nesta questão.